Cada um com seu vício

O Cláudio começou um emprego novo. O emprego dos sonhos.

No primeiro dia, os colegas quiseram conhecer melhor a personalidade dele e a primeira pergunta que um de seus novos colegas fez:

– Você bebe? Fuma? Usa drogas? Tem algum vício? – em tom de brincadeira.

– Er.. Não…eu… não tenho vícios. – Respondeu o desconcertado Cláudio diante daquela dúvida curiosa.

– Bom, é porque precisamos ser sinceros com você. Eu fumo, de tudo. O Lázaro ali adora uma birita, o Camargo também e o Francisco ali adora pôquer. – confidenciou o colega Leonardo.

“Será que serei recriminado?” pensou Claudio. Ele escondera dos colegas, mas havia nele um vício perturbador que sempre lhe causava problemas em público. Já havia perdido diversos empregos e preferia os que poderia trabalhar sozinho para não causar constrangimento para si e para os colegas. E especialmente para não ser motivo de chacota.

Desta vez era obrigado a trabalhar em um escritório com outras pessoas, era isso ou ficar desempregado, com contas enormes para pagar. A situação era desesperadora, teria que se controlar e não deixar escapar. Era o emprego que desejara há anos. Teria que ser forte.

Mas aquela pergunta no primeiro dia lhe desconcentrou e ficou martelando em sua cabeça o dia todo.

– Vamos lá cara, todo mundo tem alguma coisa estranha. A gente costuma já explicar para os novatos para não rolar espanto.  Quando o chefe sai, eu fumo aqui no escritório. O Lázaro tem uma garrafinha no fundo da gaveta e se o chefe viaja, jogamos pôquer com Chicão. – contou Leonardo. – Somos muito “legalize”! Se você curtir alguma coisa, fica tranquilo que a gente te dá cobertura.

Claudio se contorceu na cadeira, esboçou um sorriso e fingiu que estava tudo bem. “Não vou lembrar este meu vício. Não vou”. E se fosse apenas um teste da chefia?

Passaram os dias e era cada vez mais difícil se controlar. Ele ignorava, fingia que não havia problemas, mas seu trabalho estava prejudicado. Os colegas tocaram em ponto sensível.

Ele não resistiu e a tirou da bolsa e colocou na boca.

O espanto foi geral.

Mas para ele, foi o momento de alívio e uma sensação de poder. Com a sua chupeta, ele se sentia em paz, se sentia em casa. E conseguia trabalhar tranquilamente. Há 20 anos era sua parceira, há 20 anos só conseguia se concentrar e relaxar, se ela estivesse por perto. Os colegas que se acostumassem… Ele não se importava. E passou o dia trabalhando com sua chupeta na boca e o olhar assustado de todos a sua volta.

E ninguém poderia lhe falar nada. Afinal, todos ali tinham seus vícios e segredos. E Cláudio estava feliz, podia ser quem ele realmente era.

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