Uma pequena história que vale dez centavos

Sou nascida e criada no Rio de Janeiro, feita de aço e bronze (o bronze é só por fora, mas não conte para ninguém) e levo comigo a foto de um antigo imperador do Brasil. E sou uma real representante do meu país. Na verdade não sou real, não sou nem perto de ser real, sou apenas dez por cento real. Dez centavos de real.

Hoje conto minha história embaixo de um móvel. Há dias aqui estou, empoeirada e esquecida. Em breve alguém vai me achar e sorrir pra mim, isso sempre acontece. Todo mundo já achou dinheiro e sorriu por isso, não importa o valor, pode ser uma nota de cem super valiosa, ou pode ser eu mesma, uma pequena e desgastada moeda de dez centavos.

Eu caí aqui debaixo desta escrivaninha semanas atrás e a pessoa responsável pela limpeza anda meio descuidada ultimamente, na última vez em que aqui estive aqui durou pouco tempo este castigo.  Agora tá levando um pouco mais de tempo. Já me acostumei. Hoje em dia nem me desespero mais.

Teve uma vez que estive esquecida debaixo de um banco de um carro e ali fiquei por meses, achando que teria sido perdida, abandonada e nunca mais circularia. Até o dia em que o dono do carro resolveu fazer uma faxina nele e o rapaz que me recolheu no lava-rápido me colocou educadamente de volta ao painel. Meu dono na época sorriu ao ver que eu e mais cinco companheiras aparecemos ali. É o que sempre digo, se tem alguém capaz de fazer uma pessoa sorrir somos eu e minhas colegas juntas. Quanto mais, melhor.

Eu não gosto de andar de carro, uma vez fui apanhada pela pessoa errada e me senti mal por isso. O rapaz que deveria ter cuidado do carro da minha dona na época, acabou me levando junto com algumas colegas de outros valores. Sabíamos que aquilo era errado… E sabe o que aconteceu comigo depois disso? O meu novo dono me juntou com algumas notas e me trocou por cigarros. Argh. Eu sei que não deveria julgar, afinal de contas, eu tenho meu valor.

É engraçado ver como as pessoas gostam de me achar, mas gostam de se livrar de mim na mesma proporção. Eu nem me entristeço mais. No começo me chateava, eu me apegava a carteiras, bolsas e outras companheiras de bolso, hoje em dia não, já viajei o país e até fora dele nesses mais de vinte anos de vida.

Teve uma vez – essa história é muito boa, permita-me contar – um jovem dono meu me levou por engano para fora do país, eu conheci algumas colegas de tamanhos e cores bem diferentes, não gostei muito delas. Adoravam debochar de mim porque valiam mais do que eu, veja você! Eu achava isso absurdo, afinal de contas, tínhamos o mesmo “10” em uma das faces. Não me sentia menor por isso não.

Nesta ocasião em especial, meu dono foi comprar alguma coisa para se alimentar e me pegou junto com as minhas colegas estrangeiras e entregou pro vendedor. Por sorte (minha e do vendedor) ele reconheceu que eu não era igual as demais e me devolveu xingando o rapaz em uma língua que eu não conheço.

Imagine só se eu passo despercebida por esse vendedor? Estaria lá, longe da minha amada terrinha, sem valor algum. Provavelmente seria jogada no lixo. Prefiro ficar debaixo deste móvel.  Na volta desta viagem internacional, passei por uma boa ação: Esse mesmo jovem rapaz que era meu dono me entregou para um garotinho na rua, que pedia uma ajuda para comer algo. Neste dia me senti extremamente importante, como há anos não me sentia.

Eu já passei por mercados, farmácias, feiras, shows, lojas de todos os tipos, bingos, bares, bolsos, pochetes, e onde mais você conseguir imaginar. Eu já estive em todos os quatro cantos do país desde que saí do Rio de Janeiro. Eu adoro viajar, circular, conhecer novos lugares e ouvir novas histórias. Detesto ficar enclausurada em cofrinhos. Embora acabe conhecendo muitas outras moedas de histórias e valores diferentes, tenho particular medo de lugares fechados e pouco iluminados (e tenho dó de ‘porquinhos’ também, admito!)

Meu sonho mesmo era participar de uma partida de futebol. confesso que já participei de uma em um jogo de bairro, só que eu queria mesmo era estar numa Copa do Mundo e ser a moeda responsável por sortear o lado da grande final. Eu sei que é utópico, mas seria demais, não acha?

Enquanto isso sigo debaixo deste móvel, esperando a minha vez de voltar a ativa e mostrar o meu valor por aí. Pode até não ser muito individualmente, mas saiba que eu já passei por muita coisa antes de chegar aqui. Quem sabe eu não passei (ou passe) por suas mãos um dia?

Comente!

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.