Crônicas

O maior clássico do futebol brasileiro está perto de você

Hoje certamente será disputado um dos maiores clássicos do futebol mundial, mesmo sem a repercussão de um Brasil X Argentina, de um Palmeiras X Corinthians, de um Boca X River, de um Gre-Nal, de um Fla-Flu ou até mesmo um Caxias X Juventude, lá na serra gaúcha.

Talvez você não tenha a menor ideia, mas as épocas de férias escolares é famosa por sediar um dos maiores eventos do esporte bretão que existem. E se você for da minha geração, certamente já teve o prazer de participar de um evento dessa grandeza. Os “contras” entre ruas.

Para muitos é ainda uma tradição, embora muitos dos garotos de hoje jamais terão conhecimento da grandeza que é este evento.

Não tem dinheiro envolvido, não tem transmissão de TV, não tem cerimonia de entrada dos atletas, não tem uniforme oficial, sequer tem chuteiras. Quando muito um chinelo serve de luvas para o goleiro. Ou os chinelos se tornam a trave. Em geral é o time com camisa e o time sem camisa.

Esse grande clássico entre a rua de cima e a rua de baixo vale nada mais nada menos do que honra. Quando muito, vale uma garrafa de tubaína que o time perdedor pagará ao vencedor divida após o jogo.

Em geral são partidas marcadas por um dos “atletas” que tem amizade com outro que more na outra rua. Começa sempre a disputa na escolha de qual será o local do grande jogo onde definitivamente irá se definir quem é o melhor time do bairro.

Não tem juiz, fica tudo no cavalheirismo e cordialidade que garotos em suas vilas podem oferecer. A bola para se subir na calçada ou se um carro passar. Falta só marca se todo mundo concordar que foi. Pênalti então, nem se fala.

Esse clássico fica marcado por pernas raladas e tampões dos dedões que se perdem ao longo do certame. Na maioria dos jogos funciona com uma mecânica muito simples: quem fizer 2 gols primeiro ou 5 minutos de duração marcados em um relógio velho de alguém. Em melhor de 3 partidas. Não há pontos corridos, nem gol fora contando mais.  Pode ser que aconteçam “saídas bangu”, “goleiro linha”, “trave é pênalti” e outras regras pouco comuns no futebol de campo ou futsal. Mas que moldam caráter.

A dor e a vergonha de perder uma partida dessas e voltar para sua rua, são inexplicáveis. Pior ainda é se o time da casa perde o ‘contra’ para o time da outra rua.

Talvez se a maior parte dos jogadores de nossa seleção que apanhou em certos jogos por sete gols de uma forte Alemanha tivessem participado daquele jogo como quem disputa um clássico desses, possivelmente não teríamos sido tão humilhados diante do mundo todo como foi naquela ocasião.

Disputar uma partida como essa é formação de caráter. Separa os homens dos meninos, já na tenra idade. Desperta o gosto pelo futebol e ensina que na vida há dias que você ganha e há dias que você perde. Tem vezes em que o tempo fecha e tudo isso é esquecido. Pelo menos até o próximo jogo onde as amizades se renovam.

Se tiver oportunidade, veja se em seu bairro ainda existem essas rivalidades, acompanhe se possível um jogo dos garotos (e garotas!).

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