A irmandade secreta dos provadores de roupa

Dia desses fui com a minha noiva em um grande shopping de São Paulo.

Ela precisava comprar umas peças de roupa para trabalhar e eu fui acompanhar e participar indiretamente, pela enésima vez, de uma tradição que há anos sobrevive na surdina e na calada da espera: a irmandade dos companheiros que aguardam do lado de fora.

Se você acompanha alguém comprando roupas, repare bem. Beira o constrangimento, mas ao ficar do lado de fora do provador olhe em volta. Você reconhecerá outros na mesma situação. Possivelmente seu olhar vai encontrar o dos colegas e vocês em conjunto sentirão o mesmo tipo de constrangimento, quase em forma de consolo. Em um olhar entre os que estão nesta situação, é possível ouvir sem palavras um “fazer o que, né?”

E o tempo passa. Para não se sentir naquela situação constrangedora você finge olhar as peças próximas ao provador. E em geral, são peças femininas, para confundir ainda mais a espera de quem não é familiarizado.

Você olha mais uma vez, vê que um novo componente se junto ao bando. Desta vez segurando uma bolsa feminina que claramente não é a dele. E a espera persiste.

Dez. Quinze. Vinte minutos.

O que era tédio passa a se transformar em uma agonia calada. Você se cansa de ouvir as músicas do autofalante da loja, percebe que o outro colega que também aguarda continua imóvel, com um ar desesperado. Trocam novos olhares, vocês criam uma afinidade. Como quem diz: “pois é… ainda estamos aguardando…”

E assim formamos de maneira contida uma irmandade. Todos unidos na espera. Todos calados na mesma sintonia e pelo mesmo ideal.

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