Por que acho absurda a ideia de morar fora de São Paulo?

Meu nome é Roberval, tenho 34 anos, um emprego estável e uma carreira em constante ascensão. Trabalho em uma grande empresa de publicidade e me orgulho bastante de ser um paulistano nato.

Escrevo para fazer um desabafo. Ultimamente vejo vários dos meus amigos pensando em sair da capital, da máquina que carrega o país nas costas para tentarem viver um sonho inexistente. O sonho está aqui. Não sou cego e sei exatamente que acontecem vários problemas em São Paulo, a começar pelas estranhas ciclofaixas.

Nunca entendi direito essa fixação de transformar nossa cidade em um marco europeu, é um absurdo. Se eu quisesse ver a Europa, eu ia, como fui no ano passado. Uma viagem inesquecível. Assim que eu terminar de pagar as útlimas quatro prestações eu pretendo ir de novo.

Mas voltando a ciclofaixa, eu discordei desde o inicio. Temos belas e longas avenidas, marginais e ruas para que possamos ir num pulo para lá e para cá em nosso carro. Eu mesmo não me importo de fazer diariamente um trajeto longo da minha casa na Zona norte, até a região do Morumbi. Por mais que eu leve alguns minutos a mais dentro do meu carro, vou ouvindo minhas bandas e aproveitando o tempo sentado para pensar na vida, em como me tornar uma pessoa melhor. São quatro horas por dia nesse trajeto que se a pessoa sabe usar com sabedoria, não tem motivos para se estressar. Eu vejo algumas vezes uns caras enlouquecidos na faixa do lado, buzinando, gritando e continuo pensando: “coitado, esse aí ainda não sabe que isso aqui é São Paulo” e rio por dentro enquanto lá fora o Rio Pinheiros me observa com aquele seu odor peculiar.

Falei há pouco sobre minha casa e é outro dos motivos de orgulho. Consegui alugar um apezinho muito bacana em um bairro gostoso e tranquilo. Mas é temporário, eu só vou lá para descansar, geralmente eu chego em casa depois das 22h e acordo sempre muito cedo, durante a semana eu mal paro por lá. Mesmo assim, eu achei ele um negocião, sempre falo isso pro meu vizinho do 206 quando o encontro no elevador, o… o… puxa, fugiu agora o nome dele, mas enfim… O projeto mesmo é comprar um apezão daqueles enormes, sabe? Ainda tô me decidindo entre a Vila Mada e Perdizes. Meus amigos falam que eu sou louco, não é o momento certo para comprar apartamento, em especial nessas regiões onde um apartamento antigamente valeria uns 360 mil reais e hoje passam da casa de milhão. Eu discordo, os tempos mudaram, a economia é outra, é assim que funciona, eu só não mostro pra eles que é por duas razões: uma que ainda não me decidi onde quero comprar e a grana tá curta. Tenho esperado aquela promoção que meu chefe prometeu no começo do ano passado, aí a coisa começa a mudar pro meu lado. Por enquanto to gostando do meu apartamento, é pequeno, apertado, mas eu consigo viver tranquilo. Apesar dele ser no primeiro andar e do lado do playground, eu consigo descansar bastante, a criançadinha faz barulho lá fora, ou passam carros com som no talo, mas faz parte. Temos que acordar cedo e aproveitar né? O fim de semana sempre promete muito em São Paulo. E acho que essa é uma das principais razões que ninguém me convence a trocar a cidade.

Fim de semana eu aproveito mesmo, eu ligo pros amigos e vamos para tudo que é lado. No sábado já começa no parque. Não tem nada mais gostoso do que meter o ipod no máximo e pedalar no parque (ta aí, pedalar tinha que ser só no parque!). Às vezes eu perco um pouco a paciência tendo que desviar de gente correndo ou patinando, mas eu lembro que todo mundo ali só quer aproveitar e relaxar. E foco na águinha de Coco que sempre rola depois. Da minha galera eu sou único que ainda mantem a tradição, a Pati e o Fred preferem levar a garrafa deles, mas meu, pra quê? Eles dizem que é um absurdo o preço da fruta mas pensa comigo: se a gente tá longe de praia e do clima natural do coco, e ele chega ali pra gente fresquinho e saudável, não tem porque não pagar por ele. Faz parte né? E eu mega adoro.

Outra coisa que gosto muito é de almoçar com a galera no fim de semana, amo demais ir naquele restaurante de comida australiana que tem aquela costela top, sabe? A gente fica ali na fila umas 2 ou 3 horas pondo a conversa da semana em dia enquanto aquele aparelhinho não vibra e fica vermelho, como eu disse, só reclama de espera quem não sabe aproveitar o tempo. Mas eu tenho mesmo é um fraco por balada. De todos os tipos, sertanejo ou eletrônica, eu piro demais. Confesso que eu ainda não consegui comprar o apezão que eu falei ali em cima antes justamente porque na balada eu não tenho limites. Outro dia foi engraçado, achei um estacionamento ali do lado, era perfeito, 70 paus. Mas tinha manobrista e era praticamente do lado do rolê. Status demais né, véi? Lá dentro só gata, eu falava pro Felipera: “Meu, isso é o paraíso!”. Aquele dia eu enfiei o pé na jaca. O Felipe ficou mais contido, ta se formando ainda e o pai dele não anda liberando muita grana pra curtir, eu as vezes ajudo, ele reclama que não gosta de pagar 15 reais em cerveja verdinha long neck, eu não to nem aí: tudo que é bom tem seu preço né? Agora me diga, com todas as opções, lazer e curtição que a gente tem em São Paulo, porque vocês ficam se iludindo que em outros lugares vai ser melhor? Francamente não sei. E olha que não falei nem 10% do que tem de bom! Reflitam antes de me criticar…

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