Na cama com uma dama chamada insônia

Marquinho estava deitado no sofá após um dia cheio de trabalho. Tinha sido um dia daqueles: trânsito, chuva, coisas atrasadas pra entregar, sabe como é, né? 

Tudo que ele queria desde duas da tarde, era pode descer do ônibus, pegar duas cervejinhas na padaria do lado de sua casa e assistir ao jogo. Não importa qual. Só se sentar e assistir. E foi o que ele fez. 

Deitado no sofá vendo aquela pelada sofrível ele pensava que era justamente isso que ele precisava. Esquecer as preocupações e se distrair. Começou a esquecer. Começou a escurecer e quando ele se deu conta, acordou de um longo cochilo no sofá com o jogo já terminado. “Bom, hora de continuar isso na cama que é lugar certo”. 

Checou se a porta do apartamento estava fechada, escovou os dentes, conferiu se tinha água no pote do gato, colocou aquela roupa velha de dormir e refletiu “ Será que hoje em dia ninguém mais usa pijamas?” e ficou com isso martelando enquanto arrumava o travesseiro, o lençol e se posicionava na cama. “Eu mesmo não lembro quando foi a última vez em que dormi com um pijama, outra hora eu pergunto para outras pessoas se isso é só impressão minha…” e finalmente deitou e apagou o abajur.

Deu uma última conferida no celular e viu que já se aproximava a meia noite. Ajustou o relógio para despertar no dia seguinte às 6h da manhã e virou pro outro lado. 

Começou a pensar no que viria e nas coisas que teria de fazer no outro dia, sempre fazia isso e quando menos esperava adormecia. 

De repente se lembrou do jogo que estava assistindo e percebeu que não sabia quem havia ganhado. Não que isso realmente importasse, nem era o time dele. Aliás, o time dele sequer estava disputando alguma coisa havia anos. O time andava uma porcaria e ele começou a refletir sobre isso e foi aí que começou o seu grande erro. 

Relembrou dos tempos de ouro do time, dos craques, dos grandes jogos e lembrou até mesmo de um dos jogadores que ele mais gostava que começou a namorar uma moça que era do BBB, como era o nome dela mesmo? Forçou a memória por longos minutos.

Lembrou o nome de umas boas dezenas de ex-participantes de reality show e se impressionou como era possível lembrar tantos. Mas o nome da bendita não vinha. “Ok, deixa pra lá, vou dormir que eu ganho mais, amanhã eu busco isso no Google, não vou olhar isso no celular agora ou vou perder o sono”. E forçou-se a virar novamente e tentar em sono profundo. 

Sabia que se mexesse no celular isso ia ativar mais seu cérebro e acabaria despertando. Ele viu isso numa entrevista com um médico e percebeu que realmente era assim, sempre que ficava até tarde na internet, não conseguia dormir ou dormia muito mal. Aboliu esse uso e achou que a vida melhorou um pouco. 

E começou a elencar mentalmente outras coisas que fez para tentar mudar de vida: deixou de exagerar no álcool, parou de comer fast-food, refrigerante e doces só no final de semana, tá tentando parar de fumar, se inscreveu na academia… aliás, Marquinho sabia que andava em falta com a academia. Ia se programar para voltar a ir todos os dias logo cedo, começou a planejar uma nova rotina. 

Do jeito que tava não ia dar certo. Pensou bem sobre é difícil dividir a rotina atual dele com a academia e os estudos. Ele tinha muita vontade de voltar a estudar desenho, até já tinha pesquisado um curso, mas não conseguia tempo. E foi mentalmente planejando como faria. “Ok, agora chega. Vou dormir MESMO”, pensou. 

O celular acendeu com uma notificação. Ele tinha esquecido de acionar o ‘não perturbe’, mas não era nada importante. De importante mesmo ele percebeu que já era quase uma hora da manhã. E ele se sentia desperto. Começou a se sentir preocupado “não posso ficar sem dormir, amanhã fico inútil o resto do dia”. 

Ele tinha aprendido uma técnica com sua mãe e tentou de todas as formas usá-la. Consistia basicamente em se manter imóvel, completamente. Nem os pés, dedos, nem nada. Apenas ficar imóvel e fazer o maior esforço possível para não fazer um mísero movimento. Até o corpo relaxar completamente e ele finalmente dormir. Fez isso e aguentou relativamente bem. Mas uma coceira incômoda na sola do pé surgiu para atrapalhar tudo. 

Lembrou também de uma outra técnica que ele ouviu de um amigo. “Tente fechar os olhos e cantarolar mentalmente o hino nacional, dúvido você chegar até a parte do berço esplêndido”.  Ele não só chegou, como cantarolou todo o hino, o trecho do hino da independência que ele conhecia e ainda acabou lembrando jingles de políticos. Em vão.

Como sempre acontece nessas ocasiões em que nosso cérebro acaba tendo total controle sobre nós (aliás, cientificamente isso quer dizer o tempo todo) foi muito rápido para que, além de lembrar de todas essas músicas, ele lembrou também de como era obrigado a cantar o hino na escola aos 7,8 anos… 

Naquela época – e aí começou aquele filme na cabeça dele – ele era uma pessoa diferente, um menino mimado, superprotegido pela mãe e passava mais tempo em seu quarto vendo televisão do que outra coisa, deve ter sido daí as inúmeras referências estranhas que ele imagina ter. Tudo fruto de uma criação em frente a uma tela. Como é possível saber de cor, por exemplo, a música de TODOS os desenhos que passavam na TV Cruj? 

Marquinho deitado de bruços, cabeça enfiada no travesseiro e olhos bem fechados passou mentalmente por absolutamente todas as musiquinhas de desenho que conhecia. Não estava sonhando, na verdade estava bem acordado. Ele começou a se culpar e tentou mais uma vez esvaziar o cérebro e não pensar em nada. Já tentou fazer isso? É impossível quando se quer. Quando você força. Não sai. E ele tentou bastante, mas quando estava perto de conseguir algum resultado, passa ao longe um carro com um som alto de uma batida funk e alguém berrando “quica, quica, quica, quica, quica” que ia diminuindo aos poucos conforme o carro ficava mais longe. 

Ele xinga mentalmente o desgraçado do carro. Ele só queria dormir. Tava quase. 

Virou pro outro lado. Mudou a posição. Ficou de barriga pra cima. De lado. De costas. Pegou outro travesseiro pra ficar mais alto. Nada. 

De longe ele ouviu um cachorro latindo e se deu conta que já fazia tempo que ouvia esse latido. Ficou tentando imaginar o que é que estava acontecendo, por que esse doguinho tava tão agitado? 

“Não posso ficar pensando nisso. Vou pensar em dormir, vou contar carneirinhos”.

Começou a contagem. Um, dois, três…. trinta e oito, trinta e nove…. setenta e dois, setenta e três…. 

A paciência ia se esgotando. Com ele mesmo. Por que ficou cochilando no sofá? Devia ter ido dormir direto. Por que é tão difícil assim pegar no sono quando mais quer? 

Começou a bolar teorias e lembrar de histórias sobre o sono que já tinha ouvido. Tentou puxar da memória algumas estratégias pra driblar a insônia. Quando seus pensamentos começavam a parecer mais longe e ele já estava quase de braços dados com o lindo anjo de uma noite tranquila de sono vem da sua cozinha um alto e assustador GLUB do galão de água. 

As três e meia da manhã esse som parece ao de um avião passando baixo por cima do seu prédio. Praguejou mais uma vez e como resposta do universo, recebeu um estralo de seu guarda-roupa. Já reparou em quantos estralos os armários da sua casa fazem durante a noite? É assustador.  

Marquinho tentava se lembrar como era dormir, como era pegar no sono. Algo tão natural e tão simples, que acontece sem que a gente perceba. Ele só queria isso. Ir direto pra aquele gostoso lugar onde a mente viaja e o corpo relaxa. 

Pensou em simplesmente deixar pra lá e aceitar que não ia conseguir dormir, ligar uma série na Netflix e dane-se. Não seria a primeira vez que faria isso. Só que ele  sabia que as consequências disso para o dia seguinte seriam desastrosas. 

Decidiu então se virar mais algumas vezes. Rolou de um lado. Rolou do outro e até se lembrou de uma piadinha que um amigo uma vez contou a ele: “com quantas roladas você consegue dormir?”, riu dessa bobeira e rolou mais uma vez. 

Relutante, abriu os olhos e viu no relógio do criado mudo que já era quase quatro da manhã. Se ele fosse emotivo, teria chorado. A noite já tinha passado. Ouviu vozes na rua, não dava pra entender o que diziam, mas eram altas e pareciam de pessoas bêbadas voltando de alguma festa. “Bem que eu queria eu estar voltando pra casa agora, pelo menos teria uma justificativa para ter perdido o sono”. 

Começou a se lembrar da última balada que foi, curiosamente foi no seu aniversário do ano anterior, aliás, seu aniversário estava chegando. Faria alguma coisa diferente? Não faria nada? Quem ele gostaria de convidar? Começou a pensar em rostos conhecidos, amigos, parentes, colegas, rolos… Quando percebeu estava junto de alguns deles em uma cachoeira, o Paulo tocando violão enquanto a Amanda falava sobre política e o Marquinho ensaiava uns passos de dança, tudo corria bem até que começou a escurecer e um grande dragão verde passou por eles destruindo tudo, cuspindo fogo e…..

PÉM PÉM PÉM PÉM

Seis da manhã. Marquinho pegou no sono sabe-se lá que horas e nem percebeu. Mal consegue consegue levantar e sabe que o dia que está começando será uma verdadeira batalha contra o sono que não vinha na noite anterior. 

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