Um conto de pós-Natal

Fim de ano é uma quando nossos corações e pensamentos são em coisas boas, falamos muito sobre bons sentimentos, em mudança, tentar ser alguém melhor, devolver ao mundo algo bom que foi conseguido durante o ano ou quem sabe até “ganhar pontos” com o universo e começar o ano que chega com o pé direito e com energias positivas renovadas. 

Nesta época – em geral –  ficamos mais emotivos, reflexivos e não é por um acaso que as pessoas adoram ler boas histórias onde os milagres de Natal acontecem e a magia dos bons sentimentos são mais visíveis do que em qualquer época do ano. Assim acontecia muito com Ricardo, um carioca de 26 anos que veio ganhar a vida em São Paulo há 3 anos. Desde muito novo ele ouvia de seus pais histórias de Natal, assistia muitos filmes com finais felizes envolvendo neve, presentes e uma árvore super brilhante. Ele era um apaixonado pela magia do Natal. Todo ano seus parentes mais próximos e alguns distantes lotavam a casa da Vó Neusa para celebrar a data, receber o Tio Lu vestido como Papai Noel e se entupir de aves gordas e reluzentes como toda a casa. Era, sem sombra de dúvidas, a época mais feliz para ele. 

Com a mudança para São Paulo, isso começou a rarear. Ricardo trabalhava em um pequeno jornal da Tijuca quando conseguiu um emprego novo para ser repórter esportivo em São Paulo. Era um grande passo na carreira. Difícil de ignorar e impossível de rejeitar. Sempre que dava, ele pegava um ônibus no terminal Tietê e partia ver a família. Tinha conseguido com dificuldades estar lá nos últimos dois Natais, mas este ano foi diferente.  O plantão dele foi justamente na semana da data e ficaria impossível financeiramente de pegar a ponte aérea. O jeito seria passar sua data preferida longe de casa. Justamente ele que sempre acreditou na magia e nos milagres de Natal. Esperou até dia 20. Dia 21. Dia 22. E não teve jeito. Teria que ficar. Seu colega de apartamento, o Júlio, vendo que ele passaria a data sozinho o convidou para ficar com sua família alguns dias antes e Ricardo aceitou resignado o convite. Até mesmo aceitou participar do amigo oculto. Comunicar a família de sua ausência não foi nada fácil e mesmo com ofertas de pagarem sua passagem de avião, não foi possível estar lá. As poucas passagens ainda restantes eram caríssimas e ele era orgulhoso demais para desfalcar as finanças de seus pais ou tios por isso. Decidiu se sentir grato e recusar. Seria apenas mais um golpe numa sequência de acontecimentos que fizeram ele entender que esse ano definitivamente não haveria a magia do Natal para ele.

A vida pra ele não andava nada fácil. Três semanas atrás soube que teria que ficar no plantão da empresa. Há duas semanas, seu apartamento teve um cano estourado e um prejuízo de duzentos reais para ele e seu roomate.  Há uma semana, Patrícia, sua namorada, decidiu que eles precisavam dar um tempo. Ficar longe de casa no Natal seria apenas a cereja do bolo. 

Ele decidiu não levar esse último fato tão a sério e resolveu aproveitar o Natal diferente da mesma forma. Não esperava que fosse tão diferente do que estava acostumado. Pra começar, a família de Júlio nem era muito chegada a data e por isso a casa da mãe do colega mal tinha uma decoração, tinha apenas um pequeno presépio desgastado pelo tempo e com apenas dois reis magos, até aí tudo bem. A ceia não tinha hora pra acontecer e quando deu meia noite a maior parte dos familiares já tinha ido embora, também não tinham crianças na idade de gostar da visita do Papai Noel e em um certo momento da festa, uma discussão bem acalorada entre um tio e seus dois sobrinhos sobre política simplesmente acabou com qualquer vestígio de magia natalina que poderia ter existido. 

Pra piorar ainda mais, a simpática tia Rute confundiu ele com outro Ricardo, o Cadinho, um garoto de 12 anos e deu a ele um skate para crianças. Ele riu da situação, agradeceu e disse que iria trocar sem problemas. A tia explicou pra ele que comprou o brinquedo em uma loja da Rua Doze de Outubro e que trocaria, mas Ricardo foi solicito ao dizer que iria fazer a troca por conta própria.  

Ricardo ficou bastante frustrado. A experiência foi bem pior do que ele imaginou e na cabeça dele não houve Natal neste ano. Vida que segue, outros haverão de vir. 

Dia 26 de dezembro ele resolveu acordar cedo e ir trocar o presente. Para um carioca que pouco andava por São Paulo a não ser pelas ruas da região central, ir até a Lapa paulistana para trocar o presente poderia ser algo diferente. Ele não estava de plantão naquela manhã mesmo, poderia resolver a confusão da tia Rute antes de ir para o jornal no período da tarde e aqui podemos afirmar que começa de verdade o conto de Natal de Ricardo. 

Ele foi com a cara mais desanimada do que a do Grinch para o metrô Santa Cecília e pulou a música natalina na voz da Mariah Carey que estava no Spotify pronta para ser tocada em outro dia. O clima não era bom. Então que seja um Black Sabbath nos ouvidos. Cara fechada, estação após estação ele foi até chegar na Barra Funda com uma enorme sacola com um skate dentro. 

Ricardo não tinha muita ideia de onde ficava a Lapa, mas sabia que ali encontraria um ônibus que o levasse, tinha anotado em um papel alguns nomes e números de linha e começou a procurar pelos terminais pouco movimentados qual seria o ônibus correto, encostou ao lado de um ponto e tirou do bolso o papel que era seu guia. Enquanto lia e se certificava que estava ao lado do coletivo certo, uma voz o chamava:

– Cara, cuidado com a carteira aí! 

Vinha de um homem de meia idade, robusto e atarracado, careca  e pardo. Ele usava a característica camisa azul dos motoristas e cobradores de ônibus. Ricardo viu que tinha derrubado sua carteira quando pegou o papel no bolso e ficou aliviado pela ajuda do homem. Agradeceu e viu que o homem entrou no ônibus em que ele deveria entrar também. Quando subiu percebeu que era o cobrador que parecia bastante animado:

– Se você perde a carteira e chega aqui sem dinheiro, ia me complicar, amigão! – disse.

– Mermão, nem me fale isso. Eu já nem sei direito onde eu tô, ia ficar boladão se dou esse mole – respondeu Ricardo enquanto passava o bilhete na catraca.

– Ih rapaz, tu é do Rio, né? Tá fazendo o que aqui nessa cidade? Fosse eu tava lá na praia! – perguntou o cobrador.

– Queria mesmo, mas alguém tem que trabalhar! – respondeu aos risos o rapaz.

– E tu fala isso pra mim? Eu tô trabalhando mais do que Papai Noel esse ano! Trabalhei na véspera, trabalhei ontem e hoje tô aqui de novo. Mas semana que vem tô na Bahia vendo mainha. – contou o cobrador enquanto o ônibus deixava o terminal.

– Maneiro! Me fala uma coisa, esse aqui passa perto da quinze de outubro? – disse Ricardo.

– Tu quer dizer Doze de outubro? Passa sim! Te aviso quando tiver chegando lá. Pior você não sabe, na noite de Natal eu ajudei uma moça que também não era daqui e tava perdidona em São Paulo. Queria chegar perto da Avenida Pompéia antes da meia-noite pra poder ver a mãe,veio de surpresa lá de Minas. Sorte dela que não tinha quase ninguém na rua e o motora ali conseguiu correr e chegar a tempo de salvar a ceia delas, é ou não é, Oliveira? – gritou o cobrador para o motorista.

– Eu parecia rena de trenó! – respondeu o Oliveira lá do volante. 

Ricardo e o cobrador, que ele descobriu se chamar Joílson conversaram amistosamente sobre seus Natais, o cobrador riu muito da confusão do amigo secreto. Papo vai e papo vem, até que uma hora o destino estava próximo. 

– Passando esse ponto é o próximo, você desce ali e vai entrar na primeira rua a direita, já é a Doze de Outubro. A loja que você vai é grandona, não tem erro. Se quiser ir mais rápido bota esse skate no chão e vai com ele! hehehehe – brincou Joílson.

Ricardo desceu, desejou ‘Feliz Natal’ para Oliveira e Joílson e foi. Ele via bastante nas matérias que lia ou via na TV que o movimento na rua no dia 26 é enorme com pessoas trocando presentes, mas não imaginava que fosse tanto. E encarou um mar de gente nas calçadas enquanto procurava a loja onde faria a troca do presente. 

Finalmente chegou e viu que era uma loja grande, tinha de tudo, de brinquedos até roupas e até mesmo acessórios para casa. Ele não tinha a mínima ideia do que ia querer no lugar do skate. Ficou por ali procurando, olhando e pensando no que é que andava precisando. Como ainda morava de aluguel, não ia querer ter muitas coisas em casa, porque pensava em se mudar ainda no começo do próximo ano. Quanto menos coisas pra levar, melhor.

Olhou roupas, olhou até mesmo outros brinquedos – ele colecionava algumas coisas quando morava no Rio – olhou até DVD antigo, mas nada atraiu sua atenção e fazia muito seu estilo. Era difícil decidir. 

Quanto mais tempo passava, mais coisas ele via e mais gente chegava na loja. Vendo a grande interrogação em seu rosto, Angélica, uma vendedora da loja, usando o uniforme vermelho, cabelos pretos e curtos nos ombros encostou e perguntou se ele precisava de alguma ajuda.  

– Moço, tá procurando alguma coisa? – perguntou 

– Na verdade eu não sei o que eu tô procurando! – riu Ricardo – eu precisava trocar esse brinquedo que ganhei de amigo secreto e acho que não vai servir muito pra mim! 

– Era aqueles amigos secretos que sacaneiam? – perguntou Angélica rindo. 

– Antes fosse!  O problema é que eu passei na casa da família de um amigo e a tia dele me tirou no amigo oculto e me confundiu com uma das crianças da casa, acabei ganhando isso. – explicou Ricardo. 

– Puuutz! Acontece. Eu sei como você se sente, ano passado eu ganhei uma camiseta do Corinthians de amigo secreto e nem de futebol eu gosto! – riu a vendedora – Mas você falou “amigo oculto”? Você não é de São Paulo né? 

– Sou nada, sou do Rio. – respondeu Ricardo.

– Ah logo vi pelo sotaque! Eu também não sou daqui. Quer ver alguma coisa pra casa ou quem sabe pra namorada? – sugeriu Angélica

– Ih moça, a namorado me chutou esses dias, então não vai rolar – se divertiu Ricardo lembrando.

– Que chato, então deixa pra lá! Faz assim, me dá aqui o brinquedo que vou abrindo o procedimento de troca ali no caixa enquanto você decide. Você fica com crédito e depois pega o que decidir. – falou Angélica

Ricardo entregou o skate para a vendedora e circulou mais um pouco pela loja. Conforme olhava e não se identificava com nada, começou a rir da situação ridícula que se encontrava. 

Decidiu investir em alguma coisa útil e pegou alguns pares de meia e um pacote com algumas cuecas. A fila no caixa para devoluções era imensa e enquanto ele esperava, se deparou com uma mãe e seu filho que conversavam em sua frente. O menino queria porque queria um boneco gigantesco de um herói cujo o nome Ricardo nunca ouvira falar e se chamava “Super Max Hero”. 

Ricardo observou a cena e percebeu que aquela mãe parecia muito com a mãe dele, baixinha, cabelos amarrados em um coque e óculos grossos. Sempre passava um dobrado quando saia com Ricardo e com Miguel, seu irmão. Ele riu sozinho ao lembrar o quanto importunavam a coroa. Enquanto ouvia trechos da conversa a sua frente entre ela e um menino de aparentemente uns oito anos de idade, magrelo, cabelos encaracolados e um grande óculos grosso no rosto.

– Guilherme, eu já falei que eu não tenho dinheiro pra te dar esse boneco. A gente combinou que ia comprar o presente de Natal hoje pra aproveitar a promoção, mas não dá pra abusar…  – disse a mãe.

– Mas Mãe, eu não quero esse carrinho aqui….  esse aqui é zoado. O Lucas da minha sala tem o carrinho do Super Max Hero, eu queria o boneco pra poder brincar com ele!

– Eu sei filho, mas a mamãe só consegue te dar esse carrinho esse ano. A gente pede pra sua vó, pro seu pai ou pro seu padrinho. Quem sabe eles não conseguem te dar Super-Homem. – argumentou a mãe.

– Não é Super-Homem, é o SUPER…MAX…HEROOOO – corrigiu o menino enquanto fazia movimentos de luta que deviam ser do tal herói.

Ricardo olhou para aquelas meias e cuecas na sua cestinha. Olhou para a cara de desapontamento do menino e teve uma ideia. Quando a mãe e o menino chegavam no caixa, ele interrompeu.

– Moça, desculpa atrapalhar. Ouvi você falando com o garoto e eu queria ajudar…. – disse o rapaz.

– Como assim? – perguntou.

– O Guilherme… é Guilherme, né, campeão? Quer o Super Max Hero. Eu lembrei de como eu enchia a minha mãe pra ganhar um Cavaleiro do Zodíaco quando eu tinha a idade dele – respondeu Ricardo – Eu vim trocar um presente de amigo secreto pra mim, mas não achei nada que eu realmente quisesse e tô vendo que o Gui quer muito o boneco né, Gui? 

– Quero muito, tio! – respondeu o menino sem pensar. 

– Então faz assim, a senhora pega o valor que eu tenho de crédito na loja e junta com o que ia dar esse carrinho, aposto que dá pra levar o boneco do garotão. Não dá? – perguntou Ricardo – Mas só se tu prometer obedecer tua mãe hein?

Os olhos do garoto brilharam e ele saiu correndo pegar o boneco na prateleira.

– Guilherme, volta aqui, menino! – gritou a mãe – Ai moço, eu fico sem jeito, não precisa não. Eu ia falar com o pai dele, a gente dava um jeito.

– Magina, senhora. Eu nem vou precisar de tanta meia e tanta cueca assim. – sorriu Ricardo.

– Deus te abençoe moço, não sei nem como agradecer… – dizia a mãe no momento em que o menino voltava saltitante.

– É esse aqui mãe, com raio laser e a roupa de batalha!!! – falou Guilherme com uma voz esganiçada de alguém super animado com algo que queria muito.

A mãe e o menino passaram pelo caixa, agradeceram mais uma vez várias vezes a Ricardo enquanto ele, já do lado de fora da loja esperava um Uber para poder ir para o trabalho. 

Ele sentia que finalmente teve o milagre de Natal que tanto queria neste ano.

E enquanto sentia-se feliz por isso, sentiu um cutucão no ombro, era Angélica, a vendedora.

– Foi muito legal o que você fez lá dentro, viu? – disse ela. 

– Pô, que nada, eu só queria fazer o menino sorrir, fico feliz que tenha dado certo e pude ajudar o Natal de alguém. – respondeu encabulado.

– E fez mesmo…  Sabe, como te falei lá dentro, eu também não sou daqui e passei o Natal longe da minha família, por isso tô trabalhando desde dia 20 aqui. Quem sabe a gente não possa sair pra comer alguma coisa hoje mais tarde se você não estiver muito ocupado… – sugeriu Angélica.

– Eu não ia fazer nada demais, mesmo. Que horas você sai? – perguntou Ricardo

– Hoje saio lá pelas 20h… – respondeu a moça enquanto anotava o número do telefone num papel. – Me liga e combinamos?

O rapaz anotou o número em seu próprio celular e foi para o trabalho feliz de ter presenciado em menos de duas horas três “milagres de pós-Natal”. A história do cobrador e a passageira que surpreendeu a mãe na noite do dia 24, a alegria do pequeno Gui com seu brinquedo e uma companhia que pode passar com ele a ceia do ano-novo. Quem sabe? 

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