Crônica – Sua geração não é melhor do que a atual

A gente adora sentir saudades de coisas boas do passado e reviver mentalmente grandes momentos de nossas vidas. Poxa, quanta coisa legal já aconteceu um tempo atrás, né? 

Dependendo de como sua vida está agora, certamente você traça um paralelo e se recorda de outro momento onde ela estava melhor. Ou pode ser que nem estivesse melhor, mas que tiveram momentos inesquecíveis. A nostalgia quando bate, bate super forte. E a sensação de querer aquilo tudo de novo é maravilhosa. 

O presente nem sempre parece ser tão prazeroso assim quando você está numa rotina de 8hs diárias de trabalho, algumas poucas de descanso, uma penca de coisas pra pagar e inúmeras preocupações batendo na porta. Recorremos às boas lembranças do passado porque fazemos um filtro e convenientemente esquecemos os perrengues que acompanharam esses bons momentos que nossa memória nos apresenta.

E é claro, que preferimos sentir saudade dos dias bons e abstraímos os dias ruins. Você tem saudades daquele dia em que seus pais te deixaram de castigo? Daquele dia em que você tirou uma nota horrível na escola ou levou uma suspensão? Dificilmente você vai dizer que sim. Hoje, um pouco longe do problema até é possível rir disso, mas na hora não deve ter sido tão bom assim. Lembrar das coisas boas é infinitamente mais fácil.

Quantas vezes você não ouviu alguém dizer por aí “as crianças de hoje em dia não sabem o que é brincar, só ficam no celular, no meu tempo que era bom”. Daí vem e cita meia dúzia de coisas que eram legais tipo empinar pipa na rua, brincar de esconde-esconde com a vizinhança toda, jogar bola e por aí vai. O que era ótimo, realmente. 

Se você tem mais ou menos os mesmos 30 e tantos anos do que eu, vai ouvir gente da mesma idade com complexo de velhice dizendo coisas do tipo, enquanto passava boa parte da adolescência jogando seu Nintendo 64, seu Playstation enfurnado dentro de casa. 

E isso vai passando de geração para geração. Os seus bisavós possivelmente falavam para seus avós não ficarem de vadiagem na rua, que no tempo deles era bom, porque ajudavam a casa trabalhando. Seus avós talvez dissessem para seus pais que jogar futebol na rua é coisa de maloqueiro e que menina decente não ficava na rua feito “moleque”. Seus pais, certamente viviam pedindo pra você desligar o videogame porque ia “estragar a televisão”. E você, possivelmente acha que as crianças de hoje em dia passam tempo demais com celular. 

Eu também já ouvi muito cara jovem com mania de velho fazendo esse tipo de comentário sobre futebol. “Antigamente é que era bom. Jogador não andava com esses fones enormes de ouvido ou com chuteira colorida”. E eu aposto que se tudo isso existisse naquela época, eles usariam tanto quanto os atuais atletas. 

Tem muito purista da música que sai batendo no peito dizendo que música boa era feita antigamente, que hoje só tem porcaria. Será que hoje só tem porcaria ou hoje existem muito mais formas de conhecer as coisas e elas acabam sendo diluídas? É possível que já existam por aí novos Elvis, novos Beatles, Novos Novos Baianos e você ainda não teve acesso. 

Ou você pode estar tão preso no passado que com a facilidade de encontrar coisas do seus tempos de ouro prefere se apegar do que entender que cada geração tem sua característica, seus desafios, seus medos e suas coisas boas. E cada um vai ter saudade daquilo que mais conviveu enquanto se desenvolvia como pessoa. 

Em 2050 vamos ouvir muita gente dizer “no meu tempo que era bom, eu ficava vendo vídeos do Luccas Neto no celular”.

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