Às vezes é melhor não ter nada pra falar do que sair por aí falando bobagem

Estava eu matutando esta manhã sobre qual assunto eu escreveria na crônica de hoje.

Um erro grave de ter deixado para a última hora, é verdade. Mas motivos de força maior e trabalho acumulado me fizeram não ter o tempo hábil para decidir durante toda a semana sobre qual assunto seria a crônica de hoje.

E tudo bem. Pensando melhor a respeito, veio na minha cabeça o título deste post. Que é algo que de uns tempos pra cá eu levo como filosofia. 

Bom, agora essa se tornou uma pequena, mas sincera crônica sobre não falar nada. 

A internet de hoje em dia deu voz pra muita gente, muita gente mesmo. Temos que admitir que tem muita gente boa por aí, entregando conteúdo de qualidade, ajudando os outros e ensinando seus conhecimentos para as pessoas sem pedir muita coisa em troca (vez ou outra um like, um share, e por aí vai). Em contrapartida, temos também muito picareta.

O que define um bom picareta? Na minha opinião, é o sujeito que se aproveita de uma determinada onda para poder lucrar em cima e acabar tomando o lugar de alguém que realmente merecia estar lá. 

Lembra quando quase diariamente as pessoas se impressionavam com textões no Facebook? Apareceu muito guru, muito cara “inteligente” e muita gente ficou famosa na internet por ter opiniões bem sólidas que fazia as pessoas lerem e compartilharem com um enorme “falou tudo!” ou “É exatamente assim que eu penso”. 

As pessoas realmente se encantavam com textões. Finalmente parecia que as opiniões em várias linhas iam levar conhecimento pra lá e pra cá. 

O tempo passou e cada novo textão que surgia na timeline era uma revirada de olho. Enquanto surgiu uma galera que percebeu que reclamar de tudo e fazer texto sobre absolutamente qualquer coisa que o desagradasse gerava engajamento, teve gente que começou a reclamar até de coisas bobas como sabor de picolé ou como é ruim a vida de quem não consegue mais sobreviver tendo apenas dezoito salários mínimos no Brasil. Uma lástima. Uma verdadeira tragédia.

Aí o Twitter me apareceu com a opção de fazer thread (pra quem não é familiarizado, é a junção de várias mensagens curtas em sequência, possibilitando que as pessoas continuem postando em 280 caracteres, mas sem perder o raciocínio quando não coubesse nesse espaço e pudesse adicionar mais mensagens curtas linkadas a essa primeira). 

O que era um site de piadinhas curtas, de frases pá-pum, virou um verdadeiro mural das lamentações. Algumas válidas, eu não posso negar. Muitas interessantes. Mas aí os picaretas também abraçaram essa fórmula. 

Todo mundo é muito opinativo na última década. O gigante acordou! Eba! E com ele a ideia de que você PRECISA comentar tudo que tiver na sua frente. Desde geopolitica até fazer uma verdadeira análise comportamental e cientifica de participantes de reality shows. 

Tudo vira alvo. Tudo é comentado e quase nada passa batido. De novo, eu acho legal que isso exista. Durante muitos anos as pessoas foram silenciadas e/ou não tinham com quem falar suas ideias. Muita gente boa passou em branco nessa vida por não ter onde se manifestar. 

Entretanto, como nada dura pra sempre. As pessoas que tinham efetivamente um bom conteúdo diminuíram a produção e os picaretas assumiram o poder. Literalmente. O poder da palavra na internet começou a virar uma verdadeira bagunça e qualquer um se sente no direito de achar que é especialista em algo. Mesmo aquele que não tem a menor ideia do que está falando. Talvez seja para poder ficar sempre “in”. Talvez seja um vício nos compartilhamenos e aplausos de gente que vocÊ nunca viu na frente antes. É gostoso pro ego quando surge alguém concordando com você.

Já diria o sábio Homer Simpson: “Nunca diga algo até que tenha certeza que todo mundo pensa o mesmo”. Uma grande filosofia se você pensar direito sobre isso. E tem muita gente que é MESTRE nisso.  Daí vira uma bola de neve.

Mas, cada um é cada um. E como diz a política de privacidade das redes sociais, você pode publicar tudo aquilo que quiser. (Mas dependendo do que é, depois você lide com as consequências, ok?) 

Por isso, que desde o saudoso Orkut, quando ninguém entendia muito bem o que tava fazendo e falava pra meia dúzia de pessoas, o brasileiro começou a aprender a tomar gosto por opinar. Já fazíamos isso bem antes da internet, é verdade. Quem aqui, nunca respondeu ao Cid Moreira dando uma notícia no Jornal ou a algum vilão de novela pensando alto sobre seu plano maléfico.

Uma coisa é você pensar aí na sua casa. Outra coisa é colocar isso no ar. Pra mais pessoas lerem e talvez concordar. Ou discordar, daí aguenta a briga. Mas enfim. O que fica de reflexão é necessidade de falar. Toda hora. Todo dia. Sobre tudo. 

Eu tenho sido mais adepto da filosofia da Gloria Pires no Oscar em 2016.

Fosse a Glória uma ativa usuária das redes sociais em 2020, ela certamente teria uma opinião BASTANTE PROFUNDA sobre absolutamente todos os aspectos de um filme. Falaria com propriedade sobre luz, sobre cenário, sobre roteiro, sobre mixagem de som e mesmo nunca sequer tendo passado perto de um estúdio, pareceria a pessoa mais sabida do universo nesse quesito. E ai de quem discordasse dela. 

Não é bem da Glória que eu estou falando, ok? É de você mesmo, amigo viciado em emitir opinião o tempo todo! A Glória mesmo tendo conhecimento amplo, desceu do pedestal da prepotência e assumiu não ter se preparado para destilar conteúdo sobre algo que ela não tinha a menor ideia. Foi engraçado pra quem viu. Viralizou e virou meme, mas se você pensar melhor nisso hoje, ela tava mais do que certa. 

Vou eu me meter a falar sobre medicina? Sobre física quântica? Ou tentar entender as letras do Djavan? Eu não me atrevo. 

Diariamente eu vejo o pessoal se descabelando na internet – e não vou entrar no mérito sobre caixa de comentários de portal de notícias porque é um mundo a parte – sobre temas dos quais claramente não tem a mínima noção e aí eu olho pra aquilo e penso: “vale a pena?”, na maior parte das vezes, não. 

Obrigado Glória Pires por ser uma inspiração.

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