Crônica – Quem é você para cancelar alguém?

Que os tempos estão mudando, isso não é novidade pra ninguém. Muita coisa que antigamente era aceitável, hoje as pessoas reviram os conceitos e estão descontruindo alguns valores para tentar tornar o planeta um lugar mais habitável, com respeito e igualdade. 

É verdade que isso ainda é uma realidade bastante distante e muita água deve passar por debaixo dessa ponte. Mas o processo é doloroso, confuso e até o momento, de bastante embate. Afinal de contas, há quem de fato ainda carregue com orgulho coisas absolutamente condenáveis por qualquer pessoa com bom senso. 

Surgiu então na internet uma forma de tentar… vamos dizer… “ajudar” as pessoas a perceberem que estão equivocadas em coisas como racismo, machismo, homofobia, transfobia e vários outros assuntos bastante sensíveis (com razão). Basta que alguém conhecido dê uma opinião bem controversa sobre algum tema deste calibre para que imediatamente o tribunal online decretasse que essa pessoa está ‘cancelada’.

O que vem a ser um ‘cancelamento’? Resumidamente é uma forma de boicote. Não consumir mais a música de cantor que falou algo condenável, não assistir mais filmes de atores que fizeram coisas reprováveis e assim por diante. Parece bastante razoável, não é verdade? Parece. Mas como nada na internet dura muito tempo como é e tudo que faz um pequeno sucesso perde a proporção inicial, a cultura de ‘cancelar’ começou a sofrer constantes mutações. 

Como uma grande fábula de “Pedro e o Lobo” (conhece? Não? Dá uma lida nela aqui) os cancelamentos foram aumentando, muito, é claro, por que os olhares atentos das pessoas acabaram descobrindo desvios de caráter em outras pessoas aqui e ali e muito porque ‘cancelar’ as pessoas passou a ser algo que gerava assunto, polêmica, likes, relevância, aumento no algorítmo e tudo que a internet pode oferecer para aumentar a visibilidade e acariciar o ego de quem se sentia superior em apontar as falhas das outras pessoas. 

Não estou defendendo falhas de ninguém e muita gente “cancelada” recebeu esse selo com razão durante um bom tempo. Mas falo de um vício que torna a ação quase insuportável. 

Por pequenas picuinhas, algumas pessoas começaram a apontar raivosos dedos para desafetos e convencendo com fervor seus amigos que aquela pessoa deveria ser “cancelada”. 

Diariamente surge alguém que mereceu as tochas e garfos do cancelamento. Pessoas comuns se unindo para apontar falhas – algumas vezes discutíveis – de outras em coro. 

Em uma era bastante delicada e já supracitada de mudança de valores, descontruções e reorganizações de ordem, parece muito mais fácil você excluir alguém que errou ao invés de entender o erro e quando possível tentar ensinar as pessoas a serem melhores.

Mas aí entra a grande questão. Você que sai por aí cancelando tudo que não age como você esperava. Quem é você? 

Você cobra um altíssimo caráter de absolutamente todo mundo. O seu está em dia? 

Porque se você exige que todo mundo seja perfeito, sem falhas, sem erros, você só pode ser um cristal iluminado, digno de aplausos e exaltações. Alguém que nunca cometeu um errinho, que nunca mudou de opinião e que jamais, nenhuma vez nessa vida, aprendeu algo errado e buscou melhorar. Você não. Você tem todo o direito de apontar o dedo e pedir uma caça às bruxas e coloca no mesmo patamar alguém que foi criminoso e quem só é bobo com uma conexão de internet no celular e fez uma piadinha sem graça. 

Pensa um pouco sobre isso. Eu, você, seus parentes, seus amigos, até mesmo o Dr. Dráuzio Varella seria cancelado (onde já se viu um médico que fumava??? Oh! Que horror!) se os parâmetros de cancelamento seguissem nesse mesmo frenesi que andavam. Felizmente as coisas estão se acertando e o pessoal tem reparado que é preciso ter um pouco de cuidado na hora de exigir um comportamento ilibado de todo mundo.

Todo mundo erra, todo mundo tem falhas e eu acredito que possamos estar em evolução e aprendizado, sempre. Estar nesse mundo é para poder cometer alguns equívocos e aprender com eles. Tenha paciência. Busque o diálogo sempre que possível e olhe um pouquinho para o seu rabo! (ops não pode falar rabo???). 

Você se cancelaria? Eu sim. Várias vezes. Mas depois “reassinaria’’. 

Comente!

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.