Aquarentenados – Episódio 01 – Vizinhos

São Paulo, 04 de março de 2020.

Caio acaba de entrar em seu prédio, já passava das 20h e ele tinha passado por um dia exaustivo. No jornal em que trabalha a ameaça do tal vírus que começa a se espalhar pelo mundo todo preocupa e só se fala nisso. Em seus doze anos como repórter, nunca tinha visto isso acontecer. Aperta o botão do elevador e logo nota que o mesmo encontra-se parado no 18o. andar. Enquanto aguarda fuça a timeline do seu Twitter e entre pessoas comentando sobre a eliminação do Gui no BBB e o espantoso aumento de casos do coronavírus na Itália, acaba tentando se distrair vendo memes e piadas. Está rindo descontroladamente de algo, quando encosta ao seu lado um rosto familiar de um sujeito magro, cabelo nos ombros, barba rala e óculos de aros grossos, via esse rosto quase diariamente. Ele não tem ideia, ou já esqueceu qual é o nome do rapaz, mas sabe que é seu vizinho de andar. Faz um aceno que fica entre o cordial e o desconcertado enquanto guarda o celular no bolso e confere onde está o elevador. 

Seu vizinho olha para ele verdadeiramente curioso, afinal de contas, devia ser algo hilário no telefone. O cabeludo retribui o aceno e da mesma forma foca toda sua atenção no placar eletrônico do elevador, que agora está estacionado no sexto andar e começa a fazer sua contagem regressiva, até que finalmente se abre e começa aquela troca de gentilezas para decidir quem vai embarcar primeiro. Tudo é resolvido em dois ou três segundos bem confusos que são encerrados com um “valeu!” e um “opa, que isso!”. Caio evita olhar para o colega. Ainda guarda uma mágoa imensa de uma certa festa que durou até seis e meia da manhã no apartamento do cabeludo. Naquela ocasião ele precisava acordar cedo para fazer um exame e praticamente teve de pular a recomendação de ter uma boa noite de sono. Xingou mentalmente a família cabeluda inteira de tudo quanto foi nome, isso quando não estava ligando pelo interfone para ver se o cara se tocava. Foi em vão. Caio se considera um cara na dele, de boa e evita confusões. Quase fugiu da sua própria regra naquela madrugada. É verdade que já faz um bom tempo. Mas desde então, se tem alguém que ele acha um otário, é esse cabeludo. 

Chegam ao quarto andar, ambos descem e Caio corre pro seu apartamento. Resmunga algo parecido com uma despedida educada, mas na sua mente era um “vá se lascar, desgraçado”. O cabeludo não responde nada em troca e, óbvio, que isso gera uma leve revolta. Em tréplica, Caio bate a porta e no conforto do seu lar, diz “pra você também, viu?”. 

Jairo entra no seu apartamento, tira os fones de ouvido sem fio, encontra um prendedor de cabelos no aparador, amarra uma espécie de coque e pensa: “rapaz, a porta da casa desse baixinho ainda vai cair. Esse maluco é estressadão”. Deixando a mochila numa cadeira e vai até o quarto para trocar de roupa e fica lembrando da vez em que o vizinho, que ele não sabe o nome, mas tem uma antipatia gratuita, correu pra entrar no elevador quando o viu chegando. Mas ele não liga, também não vai com a cara dele. Desde sempre. Jairo adora animais, mas pega um pouco de pilha toda vez que chega em casa e sente o cheiro do xixi de gato, sabe que é do vizinho, mas nem adianta reclamar, vai arrumar treta com esse estressadinho pra quê?

Jairo se senta na cama, pega o violão, tira da mochila umas anotações e começa a trabalhar. Precisa compor essa melodia até o final da semana, antes que a produtora onde trabalha comece a cobrar a entrega do material para o comercial. Ele detesta trabalhar com publicidade, mas foi uma grana boa, ajuda a sustentar o trabalho dele na noite, ainda em busca de colocar a banda dele no mapa das maiores bandas de São Paulo. Dedilha um acorde aqui, outro ali e vê que a coisa não anda, se encosta na janela e começa a fumar um cigarro enquanto estuda a partitura e tenta encontrar o que há de errado. Mal dá a primeira baforada e escuta a persiana do apartamento ao lado se bater com força ao ser fechada. 

Caio digita no celular: “porra velho, tô aqui comendo um lanche vendo TV e esse puta cheiro de cigarro. todo dia isso vtnc”, ele então se senta novamente e continua assistindo ao jornal para tentar se atualizar. Seu editor pediu a ele uma matéria imensa sobre o que anda rolando na saúde pública do país para entrar no ar amanhã. Faz anotações, busca um termo na internet, anota referências e vai criando mentalmente os pontos principais da matéria. 

Cinco minutos depois começa a perceber que sua TV já está no volume número 40 e ele não consegue ouvir bem por causa de um som de violão vindo bem próximo que abafa a fala do jornalista grisalho e engravatado que tenta explicar o avanço do vírus no sudoeste da ásia. Fica uma arara e dá socos na parede para tentar fazer “alguém” se mancar e dar uma segurada na onda. 

Jairo escuta um conhecido “tum tum tum” vindo do lado. Dá risada e pensa “o cara nem olha na minha cara pessoalmente, mas faz isso achando que ninguém sabe quem é”. Olha para o relógio e percebe que ainda não é perto das 22h e se lembra que pela lei do condomínio pode seguir fazendo seu som tranquilamente, não é do tipo que gosta de trabalhar de fones, o som parece diferente. Aproveita para anotar em seu caderno que precisa comprar um fone bom novo. Pra ontem. 

O tempo passa e Jairo está bem próximo de terminar a melodia, o interfone toca e quando ele vai até a sala atender vê que o relógio marca exatamente 22h01. Quando atende é respondido pelo fone do outro lado sendo colocado no gancho, “quem será que é, né?”, pensa. Resolve continuar o trabalho no teclado usando fones de ouvido, melhor do que nada. Enquanto se ajeita na rede que tem em sua sala, escuta uma porta se bater com força do outro lado do corredor. Cinco minutos depois já estava concentrado lendo a partitura e se assusta com a porta batendo outra vez. Jairo não é de se abalar, mas curiosamente perdeu a concentração por um bom instante depois dessa.

São Paulo, 13 de Março de 2020. 

A maior notícia do momento é a recomendação para ficar em casa. Evitar ao máximo sair para as ruas. Precisamos achatar a curva de contaminação do coronavírus e o isolamento social é o melhor a se fazer. Para Jairo isso é péssimo. Os últimos shows de sua banda foram cancelados porque os bares onde toca fecharam, o cachê desse mês vai ser pequeno. Mais do que nunca precisa focar no trabalho da produtora enquanto consegue. Pelo menos consegue trabalhar de casa, é no seu quarto onde as ideias fluem bem e pode ser bem criativo. Ou pelo menos é o que ele achava. 

Caio foi mandado trabalhar de casa por ser diabético e consequentemente grupo de risco. Não queria. Sentia que era o momento de trabalhar bastante e se dar bem na carreira, na rua, mostrando serviço, informando. Sempre desejou uma crise grande pra poder brilhar, gosta de estar na linha de frente, mas dessa vez foi cortado por sua própria saúde. Por isso chega em casa e começa a bater um texto genérico sobre qualquer coisa informativa que o editor mandou e com um pouco de desgosto liga uma trilha sonora que combina com o seu humor: “Vulgar Display of Power” do Pantera.   

Jairo está tentando em vão compor de última hora uma trilha que deveria ter um quê de Pharrell Williams para um comercial de carro. Mas ao invés de um pequeno swing de guitarra e uma batida suave, sua cabeça e seus ouvidos só conseguem se concentrar em uma bateria acelerada, gritos e distorção de guitarras vindo da janela ao lado de seu quarto. Não que ele não goste disso, pelo contrário, se amarra. Mas não é o momento. Ele precisa se ouvir. Precisa sentir o som em que está trabalhando e conclui que seu amável vizinho está igualmente de home office e diferentemente do que se imaginava, ele também parece gostar de música. 

Respira fundo, vai na maior vibe paz e amor – por fora, por dentro está pilhado, o prazo está estourado e ele não saiu da introdução da música – e toca a campainha do 44. O som imediatamente some e alguns segundos depois Caio abre a porta, Jairo cumprimenta:

– Fala aí, irmão, beleza? Desculpa aí atrapalhar o home office forçado, tá tenso, né? 

– Pode crê, mas beleza. Vamo aê. Aconteceu alguma coisa? – responde Caio desconfiado e querendo se livrar dessa conversa o quanto antes.

– Não, então, olha só… Eu não sei se tu sabe, mas eu trabalho com música e por conta dessa parada aí, também tô tendo que ficar em casa, tô vendo que tu tá curtindo um som maneiro aí, mas eu queria ver se tem como tu só dar uma abaixada de leve? Não tô conseguindo dar um grau numa parada nem com fone de ouvido – disse Jairo. – Não gosto de ser chatão, mas é que tá difícil mesmo.

– Ah, então é você o músico que fica fazendo som até tarde né? Pô, foda quando alguém quer trampar e alguém atrapalha com música alta, né? Mas faz o seguinte, vou baixar sim porque eu não sou inconveniente – responde Caio com um certo ar de vingança. – Pode ficar de boa.

– Bacana, gentileza monstra da tua parte, brother. Boa sorte aí então, valeu? – vai saindo Jairo tentando não responder da forma mais escrota possível e voltando pro seu próprio apartamento.

– Demorô. Pra você também – falou de maneira áspera Caio enquanto fechava a porta com a sua característica delicadeza.

Jairo vai trancando sua própria porta pensando “Que maluco pela saco, mané”. 

Ainda naquela tarde, Caio participava de uma reunião à distância pelo computador quando começou a sentir um cheiro de cigarro entrando por sua janela. Sabia que só podia ser de um lugar. Perdeu a paciência depois de um determinado tempo, levantou-se no meio da reunião e foi até a janela. Olhou para o lado e lá estava o vizinho cabeludo debruçado do lado de fora da sua própria janela com o cigarro na mão. Resolveu devolver a queixa recebida mais cedo.

– E aí, mano. Beleza? 

– Qual foi, roqueiro? – respondeu Jairo.

– E esse cigarro aí? Será que você não podia fumar dentro do seu apê? A fumaça tá vindo toda aqui dentro – falou Caio – Mó cheiro forte, meu.

– Pô, foi mal ae, irmãozinho. Mas já tô terminando. Não vou mais fumar aqui na janela então. 

– Obrigado – retrucou como uma resposta Caio. 

No dia seguinte, o jornalista precisou levantar cedo para ir buscar umas coisas que deixou na redação e sentiu que a cidade estava bem mais vazia. Aparentemente as pessoas começavam a respeitar quase quarentena. Era bom sinal. Na TV e nos jornais apenas notícias preocupantes. Ele mesmo não conseguia se livrar disso, afinal de contas, era o seu trabalho. Caio precisava receber essa chuva de informações ruins o tempo todo. Quando chegou de volta ao prédio conversava com o porteiro enquanto esperava o elevador. Logo em seguida chega o cabeludo. O porteiro puxa a conversa:

– Ô ‘seu’ Jairo, também tá furando a quarentena?

– Qual foi, Zé? Fui ali buscar um lanche na padaria. Não tô saindo daqui não, a galera do trabalho tá toda em quarentena, me liberaram também – respondeu Jairo – e tu, não vai ficar em casa?

– Vô é nada – disse Zé – a firma não tá liberando porteiro nenhum. Tava agora mesmo falando com o ‘seu’ Caio aqui, o síndico quer ver um esquema pra gente. Mas eu acho é bom, se eu não trabalhar não consigo comer. Só lá em casa tem três menino pra cuidar, não posso ficar sem dinheiro. Esse tal de corona aí não vai pagar minhas conta, não hehehehe

– Tu tem é que cuidar da saúde, irmão – argumentou Jairo – Mas tá certo. Não pode deixar de cuidar da família também. Só toma cuidado aí, parceiro. Lava bem a mão e não dá mole, valeu?! 

O elevador chega e os vizinhos sobem em silêncio. Ainda um pouco constrangedor depois do primeiro dia de irritação mútua de home office. O elevador está passando pelo segundo andar quando Caio comenta pra quebrar o gelo:

– O Zé é gente boa.

– Muito. Mas acho vacilação fazerem ele trabalhar – falou Jairo.

– Tem muito patrão que ainda não tá nem aí – respondeu Caio

– Pode crê. Valeu aí, roqueiro, vou nessa. – se despediu Jairo quando chegaram ao andar e cada um correu para o seu próprio apartamento.

Naquela noite, Caio procurava um artigo na internet que seria a base para uma matéria que ele teria que escrever no dia seguinte. Revirava o Google. Achava referências, dados, matérias anteriores, procurava fontes. Procurou. Procurou. E uma hora não conseguia mais procurar nada. Não poderia ser. Mas era. Olhou para o modem em cima da mesinha ao lado e as luzes piscavam em vermelho. Só podia ser obra da lei de Murphy. Justo hoje?

Reiniciou o aparelho quantas vezes imaginava ser possível, tirou e retirou da tomada. Nada. 

Era o momento de passar pelo famoso tormento de tentar ligar para a operadora e ver o que estava acontecendo. Pagava bem caro por aquele sinal e não era possível que justo num momento em que muita gente está em casa, não conseguir usar a internet. 

Se debruçou na janela e discou o número tão odiado por metade da cidade. Daí vem aquele atendente robô que finge ser mega simpático pra aliviar o inferno que é ter que reclamar de operadora de TV/celular/internet. “Você é o próximo a ser atendido”. Cinco minutos depois ele segue sendo o próximo. Dez minutos passam e ele ainda na espera. A orelha chega estar até quente. “Isso ainda vai me dar um câncer no cérebro”, pensa. Um barulho estranho e a ligação cai.

– Ô PUTA QUE PA…

– Aí tá sem internet também, brow? – ouve-se a voz de Jairo na janela vizinha – Tô há um tempão esperando ser atendido aqui e nada. 

– Pô, cara. É sacanagem uma coisa dessas. Tô há mó cara esperando e na hora que é a minha vez de falar, ‘misteriosamente’ cai – desabafa Caio sem nem perceber com quem está falando. – É de tirar do sério.

– Ah lá, tá falando aqui que sou o próximo, de novo – Jairo comenta enquanto segura o celular numa mão e ajeita o fone de ouvidos ligado ao aparelho – Já é a sexta vez que isso acontece, tenho que mandar um e-mail aqui, essa parada de esculacho e eu sem internet no celular, qual foi, mané? 

– Agora nem tá completando a ligação – comenta Caio sem olhar para o lado e perdendo a paciência com o aparelho – Tá tirando esse negócio, meu.

– Porra, é brincadeira isso aqui, caiu de novo – se enfurece Jairo – Na moral, bem quando a galera tá em casa…

– Exatamente!! – concorda Caio, olhando pela primeira vez com quem está falando – E os caras nem pra atender o telefone e falar o que tá pegando. É um absurdo isso aí. 

– Irmão, vou te falar uma parada. Um primo meu lá do Rio trabalhava numa central dessas aí, quando o bicho pegava eles faziam isso aí na maldade, sacoé? – contou Jairo – A galera ligava pilhadona e como não tinha o que fazer, eles deixavam os maluco pendurado gastando conta de telefone até cair a linha. 

– Não duvido de nada mesmo – Caio concorda – Uma vez fiz uma reportagem que denunciou um lance desses. Os caras deixavam o telefone de propósito na caixa postal quando tinha treta, deu problema no Procon e tudo.

– E a gente fica como, diz ae?! – Jairo desabafou com essa pergunta retórica.

– Faz tempo que caiu a internet na sua casa? – perguntou Caio tentando analisar a situação

– Tem uns 20 minutos pelo menos. Eu tô com um trabalho pra entregar, na maior neurose… 

Caio avaliou um pouco a situação e ofereceu ajuda:

– Você falou que tem que mandar um e-mail, é isso? Quer tentar do meu celular? Pelo menos o 4G tá funcionando…

– Pô, sérião? Tu vai salvar minha vida!! – celebrou Jairo – Mas, tu vai me passar o telefone pela janela? E se cair?

– Não, não, guenta aí que levo no teu apartamento. Ou cola aqui! – disse Caio.

– Firmão, brother. Tô chegando aí! – saiu correndo da janela um esperançoso Jairo.

Jairo corre para ir até a casa do vizinho e ao entrar no apartamento de Caio e se depara com um grande pôster do filme “Pulp Fiction” pendurado na parede da pequena sala. 

– Aê, esse é brabo. E aquela dancinha lá, dos dois doidão? – se empolga o músico – A trilha sonora desse filme é irada.

– Eu curto muito, é meu filme preferido. Eu gosto daquela parte em que a mina tá passando mal e vão na casa do traficante pra tentar salvar ela com adrenalina. É uma loucura.

– Haha, pode crê, eu curto quando o boxeador se vinga do maluco lá com uma espada – diz Jairo.

– Nossa, é verdade, esse filme é bom demais, pô, senta aí cara, manda teu e-mail aí. Consegue conectar o teu celular no meu?

– Velhão, vou te falar a verdade, meu negócio é só música, não manjo nada dessas parada de tecnologia…

– Tá limpo, peraí, deixa que eu te ajudo.

Em poucos instantes Caio faz uma conexão usando seu celular e disponibilizando a internet na do vizinho. Enquanto isso, Jairo vai olhando a estante de livros ao lado do pôster e comenta:

– Essa biografia do Hendrix que tu tem aqui é meu livro preferido. O cara era gênio demais.

– Eu curto muito ele, meu pai era um fã daqueles de ter ido em Woodstock e tudo mais. 

– Caraca, deve ter sido do cacete! – se empolga Jairo – Imagina tu viver a história, sentir aquela vibe, tocar pra aquela malucada, tu na mesma sintonia. Porra…

– As histórias que ele me contava, você ia viajar, mano! – conta Caio – Tá aqui teu celular, manda o e-mail aí, cara. Vou tentar reiniciar minha internet. Trabalhar de casa é da hora, mas tem hora que é só dor de cabeça…

– Nem fale, eu tô com mó saudade de tocar na noite – desabafa Jairo enquanto vai mexendo no celular – Tomara que isso passe logo.

– Tomara mesmo – responde Caio. 

Depois que Jairo finalmente consegue mandar seu e-mail, se levanta, se despede e volta para seu apartamento. Antes de sair, se vira para o vizinho e agradece de forma bem entusiasmada:

– Brow, tu realmente salvou a minha vida. Eu precisava demais mandar esse email, tem uma trilha que a gente precisa entregar logo e se eu não mandasse pelo menos um trecho hoje, capaz de perdermos o contrato, aí eu tava fudido. Ia ficar com zero trabalho. 

– Fico feliz de ter ajudado, tomara que role, mano – responde Caio

– Tô te devendo uma, passa lá em casa pra tomar uma gelada qualquer hora. Papo sério.

– Imagina, não esquenta – tenta desconversar Caio – Não precisa não, eu sei que é foda ficar sem conseguir trabalhar. Eu tava no perrengue até conseguir vir pra São Paulo, não desejo isso pra ninguém. 

– Pelo teu sotaque eu achei que tu fosse daqui, bicho – surpreende-se Jairo – Mas fica o convite, passa lá, irmão. É o mínimo que posso fazer pra te agradecer.

– Que nada, sou de Brasília, mas trabalhando com paulista, peguei esse jeito de falar – explica Caio quase constrangido – Demorô, chegado. Qualquer hora eu vou sim.

“Sobe para 2.200 casos de Covid-19 em todo o Brasil e já passam de 46 mortos no país. O governo de São Paulo decreta quarentena de 15 dias para todos os 645 municípios do Estado e define quais são os serviços essenciais à população, quais os não essenciais e como eles devem funcionar”, ouvia no rádio pela manhã Caio enquanto escovava os dentes para mais um dia de trabalho em casa, agora não era apenas uma questão de se poupar, mas quase uma obrigação ficar em quarentena e o panorama continuava sendo assustador dentro e fora do Brasil. 

Viu no grupo do WhatsApp da redação que agora só iria para campo quem realmente pudesse e em dias alternados. Caio estava fora. Ele sentia-se inútil, improdutivo e queria fazer algo a respeito. Começou a vasculhar por todos os sites, se inteirar nas informações e pensar em que tipo de pauta poderia sugerir. Pensou em procurar fontes médicas, tentou se aprofundar e tentar descobrir como pelo menos acalmar os ânimos. Principalmente os dele.

No apartamento ao lado, Jairo trabalhava incansavelmente na composição para o comercial de carros e pelo sucesso que a primeira versão fez, a montadora encomendou uma outra versão, para poder tocá-la nas rádios. Para ele era ótimo. Tocava violão naquela manhã e trabalhava contra o tempo. Na noite anterior procurou referências, ouviu velhos discos, tudo procurando a batida perfeita. E se aventurava nela nesse momento. Já estava há quase duas horas nisso, entre tocar e anotar, anotar e tocar. Fez uma pausa para fumar um cigarro e enquanto pensava a respeito se dirigiu a janela, esquecendo de evitar o local, desde a reclamação do seu colega de janela. 

Pensava na vida e olhava para a cidade, um olhar vago. Aliás, por onde ele olhava, não via muito movimento. Apenas um carro ou outro passava, mas pessoas na rua mesmo, quase nenhuma. A coisa tava feia mesmo, o bairro que costumava ser agitado, especialmente perto da hora do almoço, parecia estar em um eterno dia de domingo. Ele continuava fumando seu cigarro, olhando longe, quando seus pensamentos foram interrompidos pela voz de Caio:

– A música que você tá fazendo é maneira, velho.

– E aí meu camarada… – cumprimentou Jairo – Caraca, desculpa estar fumando na janela, esqueci, irmãozinho. Vou pra área de serviço…

– Não, não. Tá tranquilo – respondeu Caio – Eu não tô reclamando não, tava aqui dando um tempo. Eu tava fudido das ideias de trabalho, mas acabou a luz. Acabou aí também?

– Pô, eu não reparei. Tava trabalhando no violão e nem percebi – disse Jairo – Cara, aquele dia tu me ajudou e nem nos apresentamos, né? Tu é o Caio, é isso? Eu lembro do Zé falando.

– Isso – respondeu – e você é o Jaime?

– Jairo…

– Pode crer, Jairo. Prazer man. Deu certo aquele email?

– Deu demais, brow. Os caras curtiram a música, tô trabalhando em outras versões dela – explicou – Não dá pra entender, o mundo parando e a malucada querendo fazer propaganda. Mas, pra mim tá beleza, tô fazendo a minha parte e ganhando minha grana.

– Da hora, cara, vou te pedir uma coisa, não estranha não… – Caio começou com ar de uma humildade que até hoje Jairo não tinha visto – Você me arrumaria um cigarro? 

– Ué? Achei que tu odiava o cheiro – respondeu Jairo.

– Pelo contrário, eu fumava bastante, até demais. Era parar ou morrer, daí eu parei, mas quando tô estressado eu não resisto – explicou.

– E tu parece que é bem estressadão – brincou Jairo e ambos riram – Toma aí, consegue pegar pela janela? Se tu derrubar lá embaixo vai ter que ir buscar, irmão!

– Manda a ver – desafiou Caio que agarrou com facilidade o cigarro voador jogado por Jairo. – Já que o mundo tá acabando, pelo menos vou mais tranquilo e menos “estressadão”, hahaha!

Fumaram juntos aquele cigarro e conversaram por quase uma hora na janela. Caio e Jairo descobrem serem torcedores do Fluminense e passam a lembrar dos tempos em que o time era imbatível no começo da década passada, falaram da frustração da Libertadores de 2008 e esperando para ver quando o Fluzão ia fazer frente ao Flamengo de novo. 

Na conversa descobrem que ambos têm uma história de vida parecida, vindos de outro estado, moram sozinhos em São Paulo há pouco tempo e são mais ou menos a aposta da família de “darem certo”, ainda estão na mesma fase da vida onde é tudo perrengue e esperança de que o sucesso um dia chega.

Conversam sobre as músicas que curtem e descobrem ter um gosto bem parecido para o rock clássico e o blues, falam de filmes, da vida amorosa e no final das contas percebem que aquelas primeiras impressões talvez fossem um pouco equivocadas.

– Brother, vou voltar pro meu som, legal falar contigo, tô te devendo aquela cerveja, aparece aí! – se despediu Jairo.

Na noite seguinte Caio aproveita a noite de folga e bate na porta do vizinho pra “cobrar” aquela cerveja. Entra e vê um apartamento com uma cara bem diferente do que está acostumado. Móveis rústicos e gastos espalhados e distribuídos aleatoriamente, uma rede pendurada no meio da sala, chão de taco bastante maltratado pelo tempo, algumas plantas penduradas próximo a janela, entre elas uma enorme samambaia. 

Jairo explica que passa a maior parte do tempo na sua “batcaverna”, ou melhor, o quarto onde fica o estúdio improvisado. Como mesa do pequeno cômodo que seria a sala de jantar está uma mesa que parece – e Jairo confirma que de fato é – uma mesa de boteco. 

– Quando eu mudei pra São Paulo contei muito com a ajuda dos amigos, essa mesa era do bar de um cara que o baixista da minha banda conhecia. Como eu fico muito pouco em casa, eu nem liguei muito. Só parava aqui para dormir ou compor e a magia acontece é aqui… – fala Jairo enquanto encaminha o vizinho para um dos dois quartos do apartamento. 

Caio fica sem entender a diferença absurda de cenário. Enquanto o restante do apartamento parece quase abandonado, o quarto é semi coberto por espumas acústicas, vários instrumentos bem distribuídos, um sofá-cama, uma mesa com um computador e aparelhagem para mixar, parece realmente um estúdio.

– Ainda não terminei de forrar com a espuma e nem isolei a janela, por isso que dá para ouvir quando eu tô tocando de vez em quando, também não tem ventilação direito e fica um calor da porra, aí preciso deixar aberto – explica Jairo enquanto começa a tocar um pouco de guitarra.

O som que sai parece de um show e Caio pensa que se tudo aquilo vazasse, nem ele e nem o bairro inteiro conseguiriam dormir. 

– Puta sonzêra, meu! Eu sempre quis ser músico, mas nunca tive muito talento, mas escrevia umas músicas quando era adolescente – se empolga. 

– Maneiro, maneiro… depois divide umas letras dessa comigo, brow.

Os dois passam a noite conversando, tomando cerveja, ouvindo música e comentando sobre como a quarentena têm afetado a vida deles, inclusive com a ideia de terem que ficar a dois metros de distância um do outro: “Pô, a gente só se falou pela janela e interfone, até que tá limpo”, brincou Jairo. 

Alguns dias depois dessa noite, Jairo bate na porta de Caio com a ideia convidá-lo para racharem o pedido de um hambúrguer. A porta não se abre e de dentro o jornalista explica:

– Velho, foi mal, não posso abrir… Esses dias tive que ir lá no meu trampo e tive contato com um cara que tava cobrindo a comitiva do presidente, você viu essa história? Tá todo mundo com o coronavírus – diz Caio – na dúvida, preciso ficar em quarentena total, mano. 

– Porra, sérião? – se espanta Jairo – E na moral, você esteve lá em casa… 

– Cacete! É verdade… Pô, eu sinto muito mesmo.

– Tá tranquilo irmão. Mas você tá bem? – pergunta Jairo

– Eu tô de boa, não tô sentindo nada, na real eu nem cheguei perto do cara e nem nada, foi um contato rápido e ele ainda tá esperando sair o resultado do exame. É mais uma precaução. 

– Porra, que merda, fiquei bolado. Mas aí, se precisar fala comigo. Eu já não tava saindo de casa mesmo, pra mim tá de boa ficar mais 15 dias enfurnado – brinca Jairo – Mas e o burgue, tá a fim? 

Os próximos dias passam assim, a amizade que recentemente tinha começado passa a ser por trás da porta e separados pelo corredor. 

No primeiro dia, os dois se conversam pela janela do apartamento. Caio pede um cigarro pra Jairo que recusa: “segura tua onda irmão, se não acontecer nada eu te compro um maço depois disso”. 

No segundo dia, jogam batalha naval em uma videochamada pelo WhatsApp. Caio vence.

No terceiro dia Jairo conta que a composição para a montadora de carros deu certo e deve ir ao ar nos próximos dias. “Por falar nisso, sempre que tô com tempo livre tô bolando uma letra de música pra te mostrar”, Caio diz a Jairo.  

No quarto dia o músico se senta na porta do amigo e os dois contam histórias de romances que deram errado e cada furada que se meteram tentando arrumar namorada. São interrompidos por volta de 1h da manhã com outro vizinho de andar gritando de dentro do apartamento que o barulho tava demais. 

No quinto dia jogam stop pela janela. Jairo vence dessa vez. 

No sexto dia, Caio indica um livro para Jairo e diz que vai deixar na porta do apartamento do amigo, quando Jairo retira o livro, vê que junto tem uma folha avulsa dentro. É uma composição assinada pelo jornalista, chamada de “Rock da Quarentena”. Jairo dá bastante risada da letra e começa a imaginar uma melodia. 

No sétimo dia os dois conversam sobre viagens que fizeram. Físicas e astrais. Mais uma coisa que descobrem ter em comum. Combinam de viajar sem sair do apartamento assim que isso tudo passar. 

E assim os dias da quarentena vão passando, sempre que não estão trabalhando em suas próprias coisas, passam tempo conversando, jogando coisas a distância, contando casos da vida, marcando rolês para o futuro. Descobrem ter alguns amigos em comum por causa do Facebook e Caio acaba lembrando que chegou a assistir ao show da banda de Jairo logo que chegou em São Paulo. 

Jairo cria uma música para a letra de Caio e divide com o amigo. Passam a compor usando o Skype, ajeitam uma parte da letra aqui, um encaixe de palavras com a melodia ali, uma rima acolá. E finalmente a música sai. Uma grande galhofa obra do acaso e do isolamento.

Jairo posta a música em seu Instagram em uma madrugada e acorda com um susto imenso do interfone tocando. Era Caio com a voz alterada: “Mano, sai na janela ae!”. 

– Qual foi, velho? Tá tudo bem? Tá passando mal? – pergunta ainda meio atordoado

– Não porra, olha teu post aí no Instagram depois. Alguém viralizou essa porra! – explica Caio aos risos – Olha a merda que a gente fez tomando proporção. 

E cada dia que passava a música arrancava risos e compartilhamentos. Viralizou. Apareceu na TV, no WhatsApp de todo mundo: “Vamos virar Roberto e Erasmo da quarentena”, se divertia Jairo.

15º dia, o isolamento chega ao fim. Nem Caio e nem Jairo apresentaram sintomas. 

Desde que aquela rixa de corredor tinha se transformado em amizade, os dois nunca mais tinham se visto sem ser por uma janela há 2 metros e meio de distância entre um quarto e outro. 

Jairo bate na mesma porta que esteve há alguns dias e dessa vez Caio abre e Jairo entra novamente no apartamento do amigo, faz um cafuné na cabeça do gato que aparenta uma curiosidade ao ver outro humano que não seja o que mora com ele depois de algum tempo e depois disso dá um longo abraço no vizinho.

– Porra irmão, que bom te ver pessoalmente de novo.

– Cara, eu sei que você não tava saindo muito de casa esses dias, mas essa barba aí tá horrível – debocha Caio

– Porra, bonito tá esse cabelinho aí né, fi? – sacaneia de volta Jairo. 

Naquela noite os dois dividiram umas cervejas, uns cigarros – alguns irregulares – jogaram videogame, tocaram violão (na real só Jairo tocou e Caio só cantarolou) e fizeram uma live para o Instagram para falar do sucesso da música e se tornou uma espécie de símbolo de alegria em tempos de quarentena. A frase mais marcante da live foi de Jairo:

– Galera, essa música não é símbolo de nada, só de porra-louquice. 

A normalidade ainda demoraria a voltar. O isolamento seguiu. Caio e Jairo continuaram trabalhando de suas casas e uma hora ou outra a crise terminou. Enquanto esse dia não chegava e a curva do distanciamento social não abaixava, os dois seguiram se ajudando, revezando para fazerem compras, ajudavam os vizinhos idosos do prédio e o mais longe que saiam era até a portaria para discutir futebol com o Zé. 

A amizade dos dois gerou ainda mais duas músicas, mas nada comparada ao “Rock da Quarentena”. Para Jairo foi uma boa divulgação, sua banda ganhou uma série de shows assim que o isolamento acabasse. Caio pegou umas matérias mais importantes para fazer e vez ou outra aparecia em lives do jornal onde trabalhava falando de como era ser um caso suspeito. 

Os dois incentivaram mais vizinhos a se conectarem e em uma certa noite cantaram e tocaram juntos a música de sucesso da dupla, que foi cantada por quase todo o prédio deles e por pessoas do prédio ao lado. Promoveram um grande encontro virtual entre alguns moradores do edifício e deixaram previamente marcado um churrasco de confraternização tão logo pudessem sair definitivamente da quarentena.


Episódio 02 – EM BREVE

Veja todos os episódios da série “Aquarentenados” aqui.

Comente!

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.