Contos

A Última Cervejinha do Irineu

A pandemia tirou uma das atividades preferidas dele: a cerveja com a turma do bar

O Irineu era aquele típico sujeito que se aposentou merecidamente após anos de trabalho árduo e passava a maior parte do tempo em casa. Ele sentia que precisava arrumar tudo que estava quebrado, aquela torneira que pingava, aquele telhado que vazava de vez em quando, os mofados surgindo no assoalho, etc. Se ele via pela frente alguma coisa fora de ordem, dava um jeito de arrumar. Essa, aliás, foi a forma que ele arrumou de se manter ocupado. Sempre foi um homem muito ativo e ficar de bobeira não era com ele. Quer dizer, até era, mas só depois das 17h, quando ele largava o expediente e dava uma passadinha no bar da esquina antes de ir pra casa descansar.

Mesmo depois de aposentado, o Irineu manteve a tradição, não que ele tivesse problemas com álcool ou coisa do tipo. Ele apenas gostava de passar por lá e jogar conversa fora com os sujeitos de sempre: o Goiaba, mecânico do bairro; o Joca, que era cobrador de ônibus, a rapaziada de uma transportadora que era vizinha do bar e o próprio dono do bar, o Felisberto, mas a turma chamava ele de “Feliz”, só pra sacanear. O Feliz era um cara bastante mau-humorado, principalmente quando tiravam sarro dele quando o São Paulo perdia um jogo. O negócio do Irineu era sentar por ali, observar a rua, jogar um dominó, contar piada e falar da vida. Claro que, vez ou outra, ele tinha em mãos um copo de cerveja, o seu famoso choppinho. Não era do feitio dele abusar, era só um aperitivo antes de finalmente ir pra casa jantar e passar um tempo com a esposa e as filhas.

Quando ele se retirou do serviço, passou a fazer isso aleatoriamente. Algumas vezes depois do almoço, outra no meio da tarde e também no seu horário habitual, afinal de contas, era quando todos os seus antigos amigos estavam por lá. 

Só que no começo de 2020 veio esse negócio de “vírus da China”. O pessoal no bar brincava chamando de “comandavírus”, mas isso era mais uma forma de sacanear o Feliz, porque uma época atrás ele cismou de colocar comanda no bar dele e a turma chiou com razão. O tal do vírus seria só mais um contratempo na rotina do boteco.

Fato é que o bicho pegou e na TV diziam que era pra ficar em casa pra evitar que o vírus espalhasse. O Irineu que tinha passado dos 60 não fazia muito tempo, ficou bem chateado quando descobriu que ele era grupo de risco. Duplamente, já que tinha problema de pressão alta. Dona Marta, sua esposa, não gostava dessas idas ao bar porque dizia que o marido não podia ficar comendo petisco e nem bebendo por causa dos remédios. O Irineu até se cuidava, mas dava essas escapadas conscientes. Já tinha até avisado ao Doutor Alberto sobre isso e ele liberou “uma cervejinha por semana”. 

No grupo da família do WhatsApp, o Irineu via gente falando que era tudo mentira e que esse negócio de vírus era conversa política, ele mesmo chegou a se questionar, pra desespero da Marina, sua filha mais velha, que explicava diariamente que a coisa não ia bem e que a família inteira precisava se cuidar. O paizão preocupado, preferiu acreditar na filha, que era estudada e lia bastante, do que no primo Olavo. O primo Olavo mandava muita coisa esquisita no grupo, igual aquela vez em que ele jurava que o Brasil tinha vendido a Copa de 98 com um texto enorme. 

De qualquer forma, o Irineu passou a ficar mais tempo em casa. Tinha muita coisa acumulada pra fazer e a melhor atitude que ele poderia tomar, era poder pelo menos cuidar da sua saúde adequadamente. 

Março passou com dificuldade. O Irineu zerou praticamente todos os afazeres domésticos pendentes e começou a se concentrar em mexer no carro. Sabe como é, né? Uma Variant 1975 sempre tem o que fazer, coisas pra apertar e ajustar. Não é mole. O problema era quando precisava de uma peça nova. Ele até procurou em sites de venda na internet umas peças, mas ele se orgulhava em dizer que era raiz, peça tem que comprar na hora. Ainda mais de carro usado. 

Com muita relutância, sua filha do meio, a Bárbara, levou o pai ao mercado em meados de abril. Era a primeira vez em que ele saia de casa. Era isso ou enlouquecer com as manias do pai, principalmente aquela de acordar às 6h30 da manhã e começar seus afazeres com o rádio ligado. Irineu perturbou tanto o pessoal de casa, que sempre que iam às compras traziam cerveja da marca que ele menos gostava. Isso era um segundo golpe duríssimo na sua diversão, primeiro não ter seus colegas para bater papo e segundo, tomando cerveja ruim. E ele reclamava:

– Ultimamente tem mais álcool na minha mão, do que na minha boca!!

Desta vez ele reclamou tanto que venceu pelo cansaço. conseguiu convencer suas filhas de que não iria tirar a máscara do rosto, manter distância dos outros e nem ficar tocando nas coisas. 

E aí virou rotina nos meses seguintes. A cada 15 dias ele ia com uma das filhas ao mercado, palpitava bastante sobre as compras e claro, pegava sua cervejinha. Numa dessas idas, até se encontrou com o Goiaba. Ele não acreditava nas notícias, tomava cloroquina por conta própria e perguntou pro Irineu porque ele não estava mais indo jogar dominó com a rapaziada. A Bárbara cortou o assunto e desconversou antes que seu pai fosse convencido a voltar para a vida normal. 

Gostando ou não, o Irineu passou a tomar uma cervejinha em casa mesmo. Vendo futebol, enquanto arrumava sua Variant, enquanto pensava na vida ou apenas sentado no terraço de sua casa olhando o movimento da calçada. 

Pode ter sido apenas efeito do confinamento, mas ele podia jurar que de um tempo pra cá mais pessoas estavam passeando na rua, algumas de máscara e outras não, além disso, era nítido que muito mais carros estavam passando na sua rua. No começo da pandemia era quase deserta, agora parece um trânsito normal. “Será que no final das contas essa pandemia nem era tudo isso mesmo?”, pensou. Ele não conhecia ninguém que tivesse pego, mas continuava acreditando no que suas filhas e a televisão diziam. 

No WhatsApp da família, a Tia Mirella mandou uma mensagem avisando que uma prima da filha de uma amiga dela faleceu com complicações da doença, enquanto o primo Olavo continua bombardeando com notícias de jornais e sites desconhecidos. 

E o Irineu ficava cada vez mais intrigado com a suposta gripezinha. Deu mais um gole na sua latinha e pensou “Isso aqui não é a mesma coisa. Não é justo, eu trabalhei a vida inteira pra poder aposentar e ficar sossegado fazendo tudo que eu quisesse e agora preciso ficar trancado? Isso não tá certo”. 

Cada dia que passava crescia na cabeça dele essa dúvida e desespero. E se tudo isso realmente fosse um exagero? Ele sentia falta da rapaziada, do dominó e já estava de saco cheio de todo dia acordar, ver TV, ler jornal, olhar pro Facebook e ver a vida passar. 

E não era só a vida, ele via as pessoas passarem em frente a sua casa. 

Não tinha certeza porque sua janela não tinha contato visual com o barzinho da rua, mas podia jurar que ele estava cheio, ouvia movimento. Será que era só ele que estava enclausurado? 

Até que em uma tarde despretensiosa em novembro, sua esposa precisou ir ao médico com sua filha caçula, a Jéssica, e não quiseram levá-lo. Bárbara precisou ir para uma reunião do trabalho e a mais velha, Marina, estava trancada no quarto em uma reunião online. Olhou em volta e se viu sozinho: “Se todo mundo arrumou alguma coisa pra fazer fora de casa, eu é que não vou ficar aqui”, pensou.

Com todo o cuidado do mundo e evitando fazer barulho para não atrapalhar (pelo menos isso era a desculpa que ele se deu) a filha no seu trabalho remoto, saiu de fininho pelo portão. Com a máscara no rosto caminhou pelo quarteirão e viu conforme andava que o barzinho do Feliz parecia estar como sempre. Enquanto caminhava, a dificuldade de respirar apareceu e como ele viu que estava sozinho na calçada, deu uma abaixadinha na máscara, liberando o nariz. 

Chegou no barzinho e era como se tudo estivesse como antes. Lá estava o Feliz emburrado, o Joca e dois ou três sujeitos que trabalhavam na transportadora. Todo mundo cumprimentou o Irineu, que tentou manter uma certa distância. Perguntou do Goiaba e o Feliz explicou: “O Goiaba não vem faz umas duas semanas já, o filho dele passou por aqui outro dia e disse que ele tava muito ruim, pegou o corona”. 

Irineu ficou chateado pelo amigo e passou os 40 minutos seguintes conversando com todo mundo. Feliz contou que quase precisou fechar o bar por falta de dinheiro, mas por sorte um parente dele ajudou a pagar as contas com um empréstimo. Como a transportadora voltou praticamente ao normal nos últimos tempos, deu pra manter o lugar funcionando graças aos almoços da rapaziada.

Irineu ficou aguado pra tomar uma cervejinha. Evitou e pouco tempo depois foi pra casa. 

Alguns dias depois ele voltaria a ficar sozinho e aproveitaria todas as oportunidades para dar outras chegadinhas no bar. Depois de uma meia dúzia dessas, não resistiu e tomou uma cerveja. Aquela golada gelada de uma garrafa “véu de noiva” era o que tava faltando na vida dele. Foram meses de espera. Infelizmente aquela seria a última cervejinha que ele tomaria na vida. 

Você deve estar pensando “Claro, deu mole, pegou covid nessas escapadas, foi para o hospital e morreu”. Não foi isso. 

Acontece que enquanto o Irineu jogava dominó (passando álcool nas mãos toda vez que uma nova rodada começava) apareceu o filho do Goiaba com a cara inchada. Acabava de voltar do hospital e recebeu a pior notícia possível. O pai acabara de falecer, mais um número nas estatísticas da covid-19.  

Apesar de ser um cara meio cabeça dura, o Goiaba, cujo nome de verdade era Rodolfo, era uma pessoa legal. Menos quando o assunto era política, ali ele se transformava, por isso o Feliz pediu educadamente para que ninguém falasse disso dentro do bar dele porque até vias de fato já tinham acontecido em 2018. 

Pobre Goiaba. 

Irineu perguntou sobre o velório e o garoto explicou que por conta das condições, seria apenas para familiares próximos e com duração de uns dez minutos. 

“Que desgraça, nem pra morrer a gente anda tendo dignidade ultimamente”, se revoltou Irineu. Ficou verdadeiramente abalado e voltou pra casa cabisbaixo, era uma pena, porque pela primeira vez em anos, estava ganhando três partidas seguidas no dominó. 

Chegou em casa triste pela perda e ainda teve que aguentar sermão das filhas, que misteriosamente estavam todas em casa ao mesmo tempo a ponto de flagrá-lo após sua fuga. Irineu contou o que aconteceu e fez uma promessa pra todo mundo: 

“Antes de tomar vacina, eu não vou mais tomar nenhuma cervejinha, nem mesmo aqui em casa. Essa de hoje foi a última, em homenagem ao Goiaba”, proclamou com a voz embargada. 

Na mesma noite mandou o primo Olavo catar coquinho no WhatsApp e saiu do grupo da família. Eventualmente ele até voltaria a tomar uma cervejinha trazida pelas filhas do mercado, mas não com aquela satisfação. Não até pelo menos poder tomá-la no barzinho com a turma, sem peso na consciência. 

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